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A CAIXA
“Feliz o destino da inocente Vestal/ Esquecendo o mundo e por ele sendo esquecida./ Brilho eterno de uma mente sem lembranças.” Alexandre Pope
Aqui, onde a luz faz um desvio e evita a vergonha de penetrar na escuridão dessa caixa, deposito os meus dias. E vou para longe, embora estando no mesmo lugar. Sem dizer adeus me contento com um vago “talvez”.
Encaixotando a lua, o sol e o que mais fez parte do meu passado, estou puro, pois estou vazio.
Não há nada de novo no Eterno Retorno.
Há um vesgo olhar para tudo e para o nada. Tirei de todas as coisas seus preciosos atributos e não há mais símbolos para seguir. Pois estou apenas caindo. Indiferentemente; inadvertidamente; silenciosamente... Há, no entanto, apenas o som do vento e, às vezes, o fraco murmúrio de antigas vozes familiares.
Estou caindo de volta para caixa de onde saiu todo esse mal. Estou caindo de volta ao aconchego do vazio sem medo de ser invisível. Sem medo de perder a substância que me faz reconhecer e ser reconhecido.
O fogo ainda permanece. Mas não há luz nem calor. Meu amor congelou dentro dela. Um espaço frio entre as estrelas. E as estrelas são apenas pequenos furos na caixa.
Aqui, dentro dela, na sua suave frieza, esqueço o mundo e por ele sou esquecido.
Estrela Decadente
Segue teu caminho louco, anjo andarilho.
No mundo não há abrigo
A não ser nas solas das tuas sandálias.
Segue tua fome, amigo.
Quem sabe no fim do mundo
Encontre teu verdadeiro amor.
Foge dessa dor, meu coração partido.
A fornalha da manhã foi acessa
E nada mais pode apagar seu fogo.
Tudo é mentira na boca da amiga.
A verdade está na luxúria dela
E no ódio que você sente por ela.
No desagrado daquela manhã de Outubro
Você conheceu a verdade do amor
Que ele é feito da mesma substância da dor.
A morte é porta para aqueles que saíram
De fininho pela porta dos fundos.
Mas o corpo pode ficar por um tempo
Instigando a libido dos vermes
Para uma última orgia madrigal
Aonde todos teus anjos e demônios morrerão num derradeiro gozo.
Mas vem amigo.
Deita teu coração tolo
Na lama dessa saudade.
Veja que sempre renasce do pecado
Tua estrela pálida.
Tua amiga apagou a luz e ninguém mais se vê,
Pois a fuligem virulenta daquela manhã
Dispersou a amizade e a confiança
Por um mundo predestinado às chamas do teu inferno.
FORNALHA DA MANHÃ
Eu, que vim através do vento e da dor,
Sou mais inteiro do que a multidão que me cerca.
Sou feito da fornalha madrigal
E todas as manhãs eu nasço com outro nome.
Esqueço quem me trouxe o mal
Num amanhecer que não desejei.
Não mereci o desgosto de te ver assim
Enquanto o sol nascia e ria de mim.
Mas agradeço ao fogo de morrer
Todos os dias, pois, só assim
Renasço dessas cinzas
E me torno senhor do meu silêncio.
A MÃE DAS MENTIRAS
É esse o corpo frio que me nutre?...
Frágil criança abortada
Na mesma noite em que foi concebida.
A embriaguez dos meus receios
Te ofereço em pequenas dozes
Misturadas as tuas gentilezas.
Concebes-te um monstro, irmã,
Na manhã em que tiras-te meu corpo do caminho,
Desviasse minhas carícias e me fizesse ver
A verdadeira natureza do Inferno!
Se hoje chove é porque o céu se partiu.
E chove estilhaços do que, um dia,
Alguns loucos chamavam de amor.
O mar traz o sangue prometido.
Meu corpo ainda está vivo.
Mas não respondo pela minh´alma
Quando ela entrou para o fogo eterno da tua boca.
Cuspa de volta se quiser!
Pois o mundo que foi prometido não existe mais.
Uma sombra ressentida
Se arrasta pelos muros
Embaixo de árvores
E restos de decoração natalina.
Foge da lembrança
E do cansaço
De um dia ter sido
O que nunca foi.
Queria reescrever o mundo
E o Livro da Vida.
Mas escorrega nas entrelinhas
De um mundo partido.
Essa mentira em que vive
É tão verdadeira.
Quantos de nós já caiu
Dentro daquela boca escancarada
No fim do corredor?
Nessa fila de desencantos
Tantos bocejam
E um outro balbucia
Uma grande verdade perdida
Somente para perde-la novamente
No arrastar dos pés.
É firme?! É concreto este anseio?!
Chega a substanciar com o tempo e o mundo?...
Ou é mais a boca de uma ilusão
Que fala em mim,
Na minha mente que ainda crer
Nos caminhos estranhos da Fuga?
Na verdade da Fuga?
Na insólita Fuga?....
PEDAÇOS
Os fantasmas me observam pela janela redonda da casa ao lado. Riem das minhas madrugadas. Conservam a iniqüidade numa taça de natal. A luz que entra pela manhã no meu quarto é virulenta. Traz com ela todo o meu pecado anterior: o erro de ter confiado demasiado em minha assassina.
Seu fantasma caminha pelo quarto. Seu amor me assombra ininterruptamente. Estaria ela me reservando uma nova morte? Quem dera que desta vez ela realmente me matasse. Acertasse de cheio meu coração, ou mesmo abrisse um furo na minha cabeça para ver a rua do outro lado e a casa onde poderíamos ter morado com nossos bebês mortos. Mas ela me esquarteja aos pouquinhos. Arranca meus olhos; meus braços e minhas entranhas; me deixa na cama encharcada de sangue e sai pela madrugada para encontrar seus amantes. Uma vez ela disse que me amava de uma maneira toda especial — O amor de um médico nazista ao seu convalescente judeu?... —. “Ah, que amor perfeito é esse o nosso!” Exaltava tão hedionda paixão enquanto arrancava as unhas dos meus dedos, uma por uma, numa sensualidade intolerável!
Certa noite ela me levou para conhecer seus amantes. Colocou-me num canto diante de um espelho enquanto ela fazia amor com eles. E, quando a sua graciosa orgia terminou e seus amantes dormiam, ela arrancou meus olhos com a ternura de uma irmã amorosa.
Como poderei retribuir demasiado carinho?!
Os outros não entendem o nosso amor. Não conhecem as doçuras do inferno como eu conheci ao lado dela. Mesmo tendo visto seus olhos seduzindo a noite, eles jamais conhecerão como eu o segredo desse mal que se esconde por trás deles. Eu conheço seus movimentos pela noite. Vejo seu rastro pela manhã e o verde do veneno purulento que ela deixou na minha cama enquanto eu dormia. — Se ao menos eu tivesse mãos para acender um fósforo! Eu queimaria toda a noite e suas lembranças! Mas ela me deixou sem muitas alternativas. Entro então em acordo com os vermes de só devorarem minha carne quando o coração também for arrancado, definitivamente.
Serei sempre fiel a ela. Afinal, que parte de mim ainda restará para amar outro alguém?
A febre me assoma nesta madrugada. Ela está longe. Nas profundezas de uma noite de embriaguez imaculada. Se ao menos eu tivesse pernas eu a acompanharia para o inferno. Mas terei que esperar o inferno aqui mesmo: na podridão dessa alcova. Eu e meus pedaços.
A SERPENTE DE MÁRMORE, nas profundezas do deserto, se enrosca no coração tolo desses meus dias.
Ela, a minha grande irmã de inferno, forjou a lâmina que me dividiu. Forjou minha sabedoria e minha estupidez. Bifurcou meus caminhos e meus sonhos. Entregou-me ao deserto sem água. E tive que aprender a viver do meu ódio e da pedra e das migalhas de um coração macerado.
Agora essa serpente olha para mim. Ela que conhecia uma dor anterior a todas as dores do mundo. Olha para mim e sussurra os segredos do veneno. Ela me fez lembrar do lago antigo onde éramos crianças e brincávamos com as bestas. Ela me faz lembrar que tudo desse lado está acabado. Tudo já foi dito. Tudo já foi feito. Não há nenhum pecado novo sob o céu. Mas ainda nós contentamos com as ruínas como a grande novidade do século.
Às vezes eu quero voltar ao antigo lar dos meus enganos. No tempo em que a luz da manhã ainda não havia incidido sobre eles e lhes revelado a face aterradora. Às vezes eu quero me cobrir com o manto das velhas mentiras, mas a inocência do nosso pecado acabou naquela aurora em que te vi na tua real nudez: Sem medo da mágoa que faria o meu dia escurecer.
Mas agora eu quero a máscara nova. Prometida há séculos. Antes mesmo que você surgisse no reflexo de todos os espelhos desse mundo de corações partidos. Quero incendiar a casa e ver o amor virar cinzas sem remorso e sem memórias. Não há tempo para voltarmos pelo mesmo caminho da nossa irmandade. O templo foi profanado e todas as crianças mortas antes que surgissem mais uns novos messias. Espero enquanto a mascará é forjada no fogo e no sangue e nas minhas antigas lágrimas. Agora eu danço sem você, nas chamas das nossas mentiras.
É me revelado o segredo da partida. E esse segredo me tenta para que eu vá mais cedo aos subterrâneos me esconder do teu mais puro amor. Aquele homem que vagou no deserto antes de mim, vem me entregar uma carta que eu não posso ler. Suas palavras são incompreensíveis. Seu dialeto é inseguro. Seu pergaminho é carcomido. Mas eu sei que é a mesma mensagem que mandarei para mim mesmo no fim desses dias. Nos olhos há uma condescendência insegura. Nas mãos ainda estão os estilhaços do meu crime. Mas eu não me atemorizo. Irei com o seu chamado na profunda noite do seu desencanto. Não temo. Não temo a serpente e seus segredos. Ela é a única que pode me levar as grandes dunas, e me fazer ver a caravana passar longe com toda a sua comitiva de idiotas.
Pluma branca sobre os sonhos
Conte, pluma branca, sobre as estrelas que caíram naquela manhã. Diga-me baixinho quem estava na festa enquanto eu vagava no inferno. Quando a luz apagou e eu dormi por três dias. O que o sol fazia? O que a lua dizia? Meus amigos reunidos ao meu redor, esperando minhas curtas intervenções no silêncio de meias verdades e meias mentiras daqueles dias. E naquele dia eu fui ao funeral de uma mentira. Mas era meu corpo que estava sendo enterrado de volta aos profundos subterrâneos do terrível reino de Perséfone. De volta aos braços dela. Num abraço que me sufocava e queimava minha memória.
E a música estava apenas começando. Fazendo-me acordar no meio da noite. Fazendo-me deixar minha irmã dormindo no quarto. Fazendo-me caminhar pela escuridão da casa e descobrir as portas que não existiam durante o dia. Vendo as estrelas num cortejo luminoso no corredor como formigas fosforescentes. Esse caminho inaudito que fez você me perder, minha irmã, não compartilho com ninguém! É minha maldição. É minha secreta profanação. Levanta-se o fedor da minha morte no porão. Mas eu salto a janela madrigal e me escondo na floresta por três dias, até que tua culpa se dissolva em outra manhã longe de mim. Uma manhã que meus olhos não farão mais parte.
Copo que se parte. Estilhaços de um sonho que se partiu em mil pedaços afiados! A morte me espiando em cada reflexo. Luxuriante morte. Pedaços de constelações. Deslizei a noite inteira para colidir com aquela manhã. Dura superfície do engano!
No deserto profundo, além das portas de Vênus
I
As vozes que me levaram para o deserto profundo estão silenciosas. Acostumei-me a usar sua túnica de solidão. Ela me cai bem no frio da noite e no calor do dia. Agora eu estou sobre a duna e estou satisfeito com a desolação ao redor. Afastei-me da frente das portas do palácio de Vênus. Foi a decisão mais acertada! Não mendigo mais nos arredores do seu templo. Tenho, nas profundezas desse deserto, o que ela jamais poderia me dar. A minha pele endureceu por causa desse sol cruel. Ele faz do fraco forte através da sua frieza. Ele não se importa de onde você vem. Ele sabe apenas que você não pode fazer mais nada além de resisti-lo todos os dias até o anoitecer triste.
E quando a noite chega
E quando a noite chega
E quando a noite chega, eu acendo minha fogueira e queimo minha saudade em suas chamas. Danço no vazio. Danço com o vento frio e fantasmagórico da madrugada, e ele sussurra nos meus ouvidos a promessa da transcendência.
[Agora, baby, beba o veneno do meu esquecimento, tranque as portas do teu palácio de amor e esqueça o lamento do vento que vem do deserto. Você jamais me encontrará se for me procurar! Aqui, onde as areias contam histórias trágicas, eu me acostumei a rir da má sorte dos amantes. Estou farto de toda essa comédia romântica que eles inventaram para nos distrair. Tudo ficou mais simples quando eu aprendi a dançar a dança do deserto.]
II
Conte uma história que nunca foi contada. Sobre um homem que vagou por setenta anos no deserto e não envelheceu um só dia. Um homem que era amigo da Morte e vagou por suas curvas frias enquanto o mundo, que outrora ele havia deixado, estava apodrecendo.
Encontrou a caravana perdida, ou o que restou dela, sob a areia na qual eu dormia. Cheiro de morte e sexo estava impregnado no seu hediondo cadáver; nas suas ruínas fantásticas; nos seus ossos fosforescentes e sedutores.
A pluma branca da morte caiu suavemente em meu olho e o mundo se iluminou.
E ela dançou para mim a noite inteira sob o cheiro dos cadáveres. Eu conhecia a tempestade e ela me disse seu segredo. O segredo da tempestade... Na sua saia as estrelas estavam aprisionadas. Doce criança-demônio-mulher, fria como a noite ela brinca em me dar seu toque mortal. Excitado eu espero a frieza da sua última carícia. Ela dança e seus séculos balançam e caem como poeira quando seu corpo voluptuoso gira no espaço.
[Acorde meu amor. Sacuda a poeira do seu pecado e mate o amante a seu lado. Mas faça tudo com silêncio. Entre na noite pura e feche a porta do seu palácio atrás de si. Siga o lamento profundo desse vento. Veja as nuvens em chamas iluminando seu caminho silencioso. Tudo que você deixa será incendiado esta noite, e as cinzas se dispersarão ao amanhecer. Não acorde os transeuntes; nem os escravos; nem os amantes. Siga esse chamado e o deserto se abrirá. E quando você encontrar meu cadáver na profundeza desse deserto, você poderá se vingar das promessas do amor.]
Mensagem de natal
No intervalo dessas luzes de natal me desfaço do teu nome e sou mil pedaços nas profundezas de um sonho despedaçado. Brinco de “cabra-cega” na beira do abismo que você não quer ver. Mas há muitas coisas que você não vai ver. Aquelas pessoas silenciosas no meio do bar, trocando olhares de surpresa e reprovação, são teus amigos mais fieis. Eles não sabem para onde eu vou quando me afasto. Quando no escuro acendo a luz para ver o mundo e vejo a nudez da sua dor. E eu me afasto para ouvir o som da torneira aberta a noite inteira; para ver a luz de um carro que se aproxima e se afasta no meio da noite; sons de portões abrindo e fechando; um grito na noite que não desperta minha curiosidade; e os inconfundíveis ruídos da tua ausência.
Sou mais inteiro quando estou longe dessa unidade que não uni ninguém. O meu mundo se bifurca do teu e eu digo adeus as velhas mentiras. Mas crio minha verdade para proteger minha mentira. É um processo lento. Eu invento o mar e coloco tudo dentro, oculto dos teus olhos mais sinceros.
Veja, ainda há vida no meu ódio, mas eu te nego esse prazer. Aprendo a ser grande e esmagar tudo que me faz perder a hora de ir. E está na hora de ir para longe das luzes desse natal. Está na hora de me calar e deixar você passar na tua caravana entorpecida. Você me acena com um lenço rosa e, ao ver meus olhos se desviarem para um fantasma que passa apresado, não me ver mais.
EFLÚVIOS
Para que lados me bifurquei?
Qual a lâmina que fatiou meu coração
Enquanto eu sonhava?
Tenho suspeita da multidão.
Não me acompanho com os felizes.
Eu sei que a Morte caminha pela rua,
Desfila na passarela, anda de moto e faz compras no shopping.
A luz dos seus ossos se confunde
Com o brilho das luzes do natal.
Oh, doce sangria!
Quem me dera sangrar a noite inteira!
Morrer e me embriagar lentamente neste fluxo perpétuo...
AFLUXO DE DELÍRIOS CARNAIS!
INQUIETAÇÕES DE BESTAS NO CIO!
PERSÉFONE
Sinto a imensurável perda. A terra treme três vezes antes de me deixar cair e que me faz somente agora saber que esse pensamento virulento, que rapidamente me inunda, é intocável a tua compreensão, Deusa Irmã. Venho de longos dias passados na parte do subterrâneo que não visitasse nos teus dias de rainha do submundo. Mas estou mais forte, embora tenha cambaleado por essas ruas largas.
Mas confesso, minha irmã infernal, que ainda estou preso a um manhã que nunca deveria ter nascido. Todos aqueles demônios foram sábios quando nos abandonaram. Mas meu caminho segui na incompetência de um bêbado. Dei-me conta de tudo que eu deveria perder naquela manhã, pois somente assim eu poderia ter alguma chance de ter algo novo que pudesse brilhar nas minhas mãos outra vez.
Tentei o enxofre; o gás; a faca, mas não encontrei neles nem a menor semelhança às tuas carícias. Criei meu jardim de prazeres num longo sono sem sonhos. E, como Lázaro, dormi por três dias enquanto você velava em segredo uma culpa que eu não te imputava.
Mas o jardim apodreceu quando o deserto me fez te trair. Segui essa adúltera de vastas curvas e profunda solidão. Segui até que eu não pudesse mais te ver a distância, na linha do horizonte que desvanecia.
Cara Rainha, irmã do meu infortúnio, uma bruma tão densa quanto o mármore me cegou. Vago agora cego pelo voluptuoso deserto, e nem ao menos há o brilho tênue da tua estrela para me guiar. Ando por sobre o colossal cadáver dos meus desejos. O chão é purulento e na estrada não há promessas de descanso.
Melhor seria nunca ter deixado o calor do teu inferno!
A Senhora Rubra
Sim, eu lembro. Aquela senhora usava vestido vermelho e dizia ser a mãe de todo o desencanto. Encontrei-a certo dia no meio de uma embriaguez agridoce. Vestia um véu violeta e cantava para um cadáver. Ela sabia dos caminhos que perdi. Ela sabia que eu não mais queria voltar. Ela me convidou para ver o mar, e o mar estava borbulhando.
Sempre acreditei mais nas suas mentiras do que no bom senso dos sábios. Conheço minha escolha, e eu escolho a distância de um deserto profundo onde o amor não alcança.
Sete chances eu tive para voltar, mas deixei que eles se divertissem sem mim. Não há mais em mim a benevolência de outrora, quando acariciava-lhes e afagava suas mãos. Eu os abandonei na própria sorte das madrugadas. Não faço mais parte deles. Eu me perdi.
Segui os olhos daquela antiga senhora, ela me envenenava. No entanto, eu conhecia todos os venenos que ela me oferecia dissimulados em suas carícias. Eu não me importei. Nem quando, na floresta escura, com tochas nas mãos, procuravam por mim, gritavam meu nome, e eu não os respondi. A rubra Senhora cobriu-me com seu manto de silêncio.
Confissões ao pé da escada
As luzes são acessas. Luzes amarelas, irritantes como um sol doente. Busco um lugar onde eu possa esconder meu espírito. Mas um ano se passou e o mundo expandiu para me esmagar. Sou mais um homem-barata! Não há para onde ir a não ser resignar-se de todas as coisas. Eis o único caminho que se sobrepõe sobre todas as expectativas.
Acendo uma lamparina num cômodo escuro e abandonado da casa onde ninguém me encontrará. Frio e silencioso. Não vou para onde me chamaram. Calo-me para todos eles. Serei rei do imenso silêncio!
A dor; a culpa; a loucura! O festim está preparado para uma noite onde me encontrarei só e afastado de qualquer memória. A chuva cairá e meu nome se apagará. Agora apague a luz e ouça o ruído da minha lenta queda.
Em algum lugar pés e mãos se encontram num sonho desesperado. Há chamas e serpentes no inconsciente. Sou maior onde não estou. Entre vocês eu me perco e não sou o que nasci para ser, nem faço o que deveria fazer. Pois, do silêncio faço minhas ferramentas. Hoje eu sei que partir é melhor do que chegar. Para onde vou é melhor não dizer. A palavra é maldição, mas liberta alguns.